Agora há pouco, morri de saudades.
Morri por muitas dessas saudades, cada uma de várias, uma a uma.
Descendo a rua senti vontade de te por pro lado certo da calçada (que é o de dentro, claro. Isso não me escapava). Mais pra frente, uma senhora engraçada passou falando com o cachorro, minha cabeça sondou o perímetro atrás de comentar cochichos indisfarçáveis. Você era rápida, imitava mesmo sem sair direito, e estourava uma risada deliciosa de se ouvir, fazendo discorrer sobre o que o cachorro estava achando daquilo.
Passei depois pela fachada dos correios, refletora azul de imagens dos calçadistas (Andar pela domingos virou modalidade. Calçadas da vila mariana, terríveis!) e quis tirar foto bem arrumados, em movimento, ou tentar até conseguir uma quase boa. E pensei em te comprar um oclão que combinasse com a tua franja recém cortada e te inventar um apelido na hora.
Daí me bateu a vontade de assistir a um filme na Paulista. Ou Santa Cruz ? Tanto faz. Filme com artista engraçado, tipo Borat, não tem nenhum? Ou melhor, dessa vez você podia escolher, que eu assistiria até ao Gael (mentira, Gael não).
De repente um vento gelado, encanado pelo corredor de prédios, eu tava sem casaco. Senti saudade do inverno, e dos filmes de ver na sala. De ter de 2 a 3 missões na hora de assisti-los: uma missão primária (comprar um filme decente), uma missão secundária (abastecer a sala de iguarias como bolinhas de queijo), e uma última, secreta (trazer a coberta, hm). Também de nesses filmes buscar referências pra roupas, que era pra saber o que te dar de presente.
Desci a escadaria do metrô que nem a gente brincava de Gene Kelly entrando em cena recitando uma piada interna. Os metrôs parados voltaram a funcionar em tempos próximos, o som dos sinais me fez bailar sozinho desta vez o baile nosso de metrôs. (Que logicamente me levou aos shows, e saídas pra dançar.)
Sim, a esse ponto minhas vidas estavam pelo fim, mas ainda morreria mais até o fim do dia.
Dentro do vagão, alguém balbuciou meio alto uma do los hermanos, imitou até o sotaque do Amarante. A música que eu te ensaiava escondido pra te cantar um dia que arrumasse um amigo com um violão e que não tirasse sarro da minha alma apaixonada. É assim que eu amo, e que eu achei tão bom amar.
Cheguei em casa, dei de cara com a cama (que costumava ser bem maior) e ganhei uma risada curta, esperta. Lembrei do dia do “fico”, que foi sensacional. Fui do quarto ao banheiro. E depois seguimos por quarto-cozinha-sala-quarto-corredor-chuveiro-corredor-quarto-sala-escada, volta pro quarto.
Seu corpo conversava tanto com o meu, que não precisavamos de incentivo antes de nada. Sua pele, macia, cheirosa, com sardas localizadas e marcas suaves…e o incomparável repouso da sua cabeça no meu peito, com a mão acompanhando por baixo do queixo.
Abri a geladeira e vi o freezer, de lá saía um hot wings ou um nhoque recheado com catupiry ao molho branco pra nós, e mais sarro do jornal do SBT enquanto comíamos.
E senti muita vontade de te colar agora esse texto, mas hesitei. Mas um dia eu te mostro.
Que pena, né?
Pois de longe, foram meus momentos mais querido.